
Conferência Nacional de Saúde
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ANÁLISE DA "PROPOSTA
DE IMPLEMENTAÇÃO DA DESCENTRALIZAÇÃO", DO MINISTÉRIO
DA SAÚDE, DIVULGADA EM 18.11.97
Mozart
de Oliveira Júnior
Assessor do CONASEMS
Como o próprio nome indica o Ministério
da Saúde apresentou uma proposta de descentralização
que, por alguns aspectos, faz lembrar a NOB 01/96, embora, como veremos
adiante, pouco tenha a ver com seu conteúdo.
Esta análise sucinta do documento aborda
a proposta sob dois aspectos: o financeiro e da organização
da política de saúde no país.
Sob o ponto de vista financeiros os principais
pontos a destacar são os seguintes:
ASSISTÊNCIA AMBULATORIAL E HOSPITALAR
-
Para a assistência à saúde a
proposta mantém intacta o orçamento de 1998, encaminhado
ao congresso nacional pelo executivo, que diminui os gastos de assistência
previstos nos orçamento de 1997, de R$ 9.447, milhões de
reais (nove bilhões, quatrocentos e quarenta e sete milhões
de reais) para R$ 9.261, milhões de reais (nove bilhões,
duzentos e sessenta e um milhões de reais), com uma perda de 181
milhões de reais;
-
Argumenta o Ministério da Saúde que,
finda a dívida de 1996 e 1997, há um ganho de 411 milhões
de reais, uma vez que o valor destinado à assistência é
de 8.850 (7.080 + o abono de 25%). Este "ganho" seria de 168 milhões
para o PAB, 201 milhões para o PACS e PSF e 42 milhões para
a Vig. Sanitária, valores estes constantes do orçamento do
MS para 1998, que é 181 milhões de reais inferior ao atual
na assistência e 1,3 bilhões inferior ao de 1997 no montante
global.
-
Contudo, o MS deixa de informar que a CPMF irá
arrecadar 6,5 bilhões de reais em 1997 e 8,2 bilhões em 1998
(previsão do ministério da fazenda). Estes valores, somados
ao orçamento de 1996, no valor de 14,8 bilhões de reais,
deveria destinar em 1997 um total de 21,3 bilhões de reais para
o MS e 23 bilhões em 1998. Isto somente não está ocorrendo
porque o governo federal está reduzindo as demais fontes da seguridade
social que deveriam financiar a saúde, de 14,8 para 12,6 neste ano
e para 10,9 bilhões em 1998.
-
A CPMF foi criada justamente para viabilizar o financiamento
do SUS com a NOB 01/96. A seguir um quadro resumo da situação
atual, dos valores em negociação e da proposta atual formulada
pelo MS:
|
ATO ASSISTENCIAL
|
ATUAL
|
PROPOSTA INICIAL
|
NEGOCIAÇÃO
|
PROPOSTA DO MS
|
|
Valor do PAB
|
0,83
|
1,00
|
1,00
|
0,83
|
|
Valor p/ implantar o PAB em todos os municípios
|
|
501,
|
501,
|
168,
|
|
No de procedimentos do PAB
|
52
|
52
|
52
|
56
|
|
Fator de ajuste
|
|
0,50
|
0,50
|
Não há
|
|
PSF
|
Proc 50% >
|
Até 0,80/hab
|
Até 0,80/hab
|
Até 0,41/hab
|
|
PACS
|
Proc 50% >
|
Até 0,30/hab
|
Até 0,30/hab
|
Até 0,16/hab
|
|
Tabela SIA média e alta
|
Abono 25%
|
40% diferenciado
|
25% diferenciado
|
25% linear
|
|
Tabela SIH
|
Abono 25%
|
40% diferenciado
|
25% diferenciado
|
25% linear
|
|
Vig. Sanitária
|
|
400,
|
260,
|
42,
|
IMPLANTAÇÃO DO PAB
A proposta do MS prevê a implantação do PAB apenas
para os municípios que estão abaixo da média atual,
sem qualquer alteração nos demais municípios, inclusive
naqueles que estão acima de R$ 1,50 (PAB + fator de ajuste proposto).
Esta proposta, apresentada de diferentes formas há pelo menos 6
meses, prevê tão somente 168 milhões de reais para
o PAB, contra os R$ 501 milhões previstos para a implantação
plena do PAB de R$ 12,00 hab/ano já aprovada pela CIT.
VIGILÂNCIA SANITÁRIA
Os valores propostos inicialmente para a Vig. Sanitária
forma de 400 mil reais/ano, para o pagamento de um PABVS de 0,15/hab/mês.
Posteriormente, na negociação, foi proposto um PABVS de 0,10,
o que totalizava 15,9 milhões/mês, que somados aos valores
e expectativa de produção de serviços de média
e alta complexidade em vig. sanitária totalizavam R$ 260 milhões
de reais/ano. Finalmente o MS apresenta proposta de gasto, apenas com o
"básico" de 0,26 hab/ano ou 0,02/hab/mês (dois centavos hab/mês).
POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA
-
Com relação à política de assistência
farmacêutica o MS destinou no orçamento de 1997 um total de
450 milhões de reais para a aquisição e distribuição
de medicamentos. Em 1988 estes valores foram reduzidos para 390 milhões,
com perda de 60 milhões de reais.
-
Deste montante, o MS destaca 159 milhões para a "farmácia
básica", propondo um repasse (em medicamento, não em dinheiro,
que viria em uma segunda fase) equivalente a R$ 2,00/hab/ano, ou 16 centavos/mês
para 33 milhões de habitantes que residem em municípios com
menos que 20 mil habitantes. Para os demais 126 milhões de habitantes
( 80% da população brasileira), propõe R$ 0,73 centavos/ano
ou 6 centavos/habitante/mês.
-
Quanto aos 231 milhões de reais restantes para aquisição
e distribuição de medicamentos previstos para 1998 a proposta
não faz qualquer referência sobre seu uso e critérios
de distribuição.
POLÍTICA DE COMBATE ÀS CARÊNCIA NUTRICIONAIS
-
O orçamento do MS para o programa do leite em 1997 era de 200
milhões de reais. Este valor foi reduzido para 170 milhões
no orçamento de 1998. O MS apresenta uma proposta de gasto de 159
milhões, sem dizer como, avocando a ele a definição
de critérios de distribuição.
EPIDEMIOLOGIA E CONTROLE
DE DOENÇAS
-
Apesar da equipe técnica da Fundação Nacional de
Saúde ter formulado proposta, que define inclusive valores para
este repasse, a mesma não foi formalmente apresentada, o que impossibilita
sua análise.
REPERCUSSÕES DESTA PROPOSTA NA POLÍTICA NACIONAL
DE SAÚDE
-
Com o argumento de agilizar a transferência financeira a estados
e municípios, o MS propõe recriar o SUDS, transferindo todos
os recursos federais (exceto aqueles transferidos fundo a fundo a municípios,
que hoje correspondem a apenas 24% do total) ao estados. Ou seja, estados
como a Bahia, que não transfere nenhum recurso fundo a fundo, receberá
como recompensa 100% do seu teto financeiro no fundo estadual de saúde
(OBS.: mesmo a ausência de fundo não impede a transferência,
conforme está proposto).
-
A NOB 01/96 define não apenas os pré-requisitos para a
habilitação como exige que o estado que decida habilitar
na gestão plena tenha pelo menos 50% de seus municípios habilitados
na NOB 01/96 bem como 80% dos recursos do teto estadual comprometidos com
transferência fundo a fundo para municípios. Não se
trata de uma regra burocrática, mas de preservar a constituição
federal e garantir, de fato, a descentralização.
-
Em contrapartida a esta habilitação POR DECRETO dos estados,
uma vez que feito o repasse ninguém de bom senso acredita que em
ano eleitoral ele será cortado se não cumprir em 90 dias
os pré-requisitos, o MS estabelece regrar novas para habilitar municípios
na gestão plena da atenção básica e do sistema.
No primeiro caso em ordem crescente de população e inversamente
no seguinte, exigindo que 60% dos municípios da primeira faixa sejam
habilitados para, só então, iniciar a fase seguinte. Além
de ser uma regra já tentada e rejeitada por estados e municípios
quando da elaboração da NOB 01/96 esta proposta impede que
em 90 dias seja atingida a meta de 80% de transferência fundo a fundo,
pré-requisito para habilitar os estados em gestão plena.
Ou será, como suspeitamos, que os pré-requisitos de habilitação
dos estados foram definitivamente abolidos? Além disso, caso um
estado (e existem vários) tenham apenas um ou dois municípios
nas maiores faixas de população e estes não desejem
habilitar na gestão plena do sistema municipal de saúde todos
os demais municípios do estado ficam PROIBIDOS de pleitear a gestão
plena do sistema municipal de saúde.
-
Outra contrapartida é POR DECRETO passar municípios de
capitas e de gestão semiplena para a gestão plena. Qual a
vantagem na proposta formulada? Financeiramente é provável
que a maioria destes municípios não ganhem nada. Será
apenas um docinho para não haver grita contra o mesmo procedimento
com os estados?
-
Contrariando todas as decisões anterior da CIT e do CNS o MS
volta a propor um aumento linear da tabela do SIA e SIH/SUS. O argumento
de que na tabela SIA é provisório não subsiste a nenhuma
análise. Uma vez publicada tabela com reajuste linear de 25% para
a média e alta complexidade com que recursos adicionais será
publicada a nova tabela? Haverá diminuição dos valores
já publicados para contemplar o reajuste diferenciado e os novos
procedimentos previstos?
-
A proposta de PPI pode ser batizada de qualquer termo, menos de planejamento
e programação. Quanto mais integrada. Ela é tão
somente adaptação do relatório de metas que o MS envia
ao Gabinete Civil, acrescida de uma coluna de unidade de medida e outra
de recursos financeiros. Na formulação do instrumento quantificaram
até metas qualitativas, tipo implantação e funcionamento
dos conselhos de saúde, organização de comissão
intergestores, etc. Não há qualquer referência ao principal
objeto da programação: a pactuação intergestores
e o planejamento ascendente.
Por todos os motivos acima expostos, julgo ser suicídio
político para o CONASEMS, para o SUS e para a CIT e Conselho Nacional
de Saúde a aprovação desta proposta. De uma só
tacada voltamos ao SUDS, acabamos com a NOB 01/96 e excluímos as
instâncias intergestoras e o Conselho de qualquer perspectiva de
atuação futura. Esta é, sem dúvida nenhuma,
a pior proposta já apresentada até o presente momento. O
que o Ministério da Saúde propõe é trocar o
SUS por um orçamento para 1998 menor que o de 1997. Ou, nas contas
do MS, trocar 411 milhões de reais pelo SUS, voltanto ao período
pré-constitucional, onde a regra era a negociação
caso a caso entre a União e os Estados.
PROPOSTAS
-
Manutenção de todos os critérios de habilitação
de estados e municípios às diferentes gestões da NOB
01/96, particularmente no que diz respeito ao quantitativo de município
e valores de transferência fundo a fundo necessários à
habilitação dos estados;
-
Manutenção do PAB em 12 reais/ano, com implantação
progressiva, de acordo com a disponibilidade financeira do MS;
-
Manutenção do fator de ajuste, uma vez que não
se justifica manter PAB acima de R$ 1,50 como é a atual proposta
apresentada pelo MS;
-
A nova tabela do SIA está pronta. Por que esperar até
abril para publicá-la? Publicação imediata da nova
tabela;
-
Definição do valor de R$ 2,00 hab/ano para o repasse dos
recursos correspondentes à aquisição e distribuição
de medicamentos para todos os municípios, o que totaliza
318 milhões de reais, valor inferior aos 390 milhões disponíveis
no orçamento 1998.
-
Volta dos valores do PACS/PSF ao que está na NOB 01/96 que representa
até o dobro dos valores propostos. É mais seguro manter um
número menor de equipes do PACS e PSF com plenas condições
de funcionamento que apresentar estatísticas de crescimento do número
de equipes com prejuízo da proposta;
-
Repasse de todo os recursos de combate às carência nutricionais
per capita, de acordo com critérios definidos pela CIT;
-
Implantação da proposta de PPI elaborada pela equipe técnica
do CONASS e CONASEMS e MS, já apresentada à CIT;
-
Apresentação imediata da proposta da FNS, com valores,
conforme foi elaborada pela equipe técnica da Fundação.
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