
Conferência Nacional de Saúde
On-Line
Na seqüencia da 10ª Conferência
Nacional de Saúde
TEMA: NOB 96
A
Gestão Semiplena no Sistema Único de Saúde e a NOB
SUS 01/96
(roteiro da palestra proferida
no V Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em 28 de agosto de
1997)
Patrícia Tavares
Ribeiro Lucchese
Pesquisadora do
Departamento de Ciências
Sociais
da Escola de Saúde
Pública
da
FIOCRUZ
INTRODUÇÃO
1. Perspectiva de análise
do tema: a partir das informações disponíveis na direção
nacional do SUS, avaliar a diretriz constitucional de descentralização
das ações e serviços de saúde para a implementação
do Sistema Único de Saúde.
2. Do objeto da análise: a descentralização
da atenção à saúde e sua regulação
no processo de implementação do SUS
3. Pressupostos da análise:
-
A descentralização da gestão
do sistema só se realiza plenamente se acompanhada de descentralização
da gestão financeira
-
O comando único só se efetiva
com autonomia na gestão financeira
4. O que é a gestão semiplena:
parte da estratégia de descentralização das ações
e serviços de saúde instituída pela Norma Operacional
Básica SUS 01/93, que foi efetivamente implementada.
A GESTÃO SEMIPLENA
NA ESTRATÉGIA DA NOB SUS 01/93
Contexto
-
IX Conferência Nacional de Saúde
- "Municipalização é o Caminho"
-
Início de Gestão Ministerial
-
Ampla participação dos principais
atores setoriais
Eixo da NOB SUS 01/93
Situações de transição
para que estados e municípios atinjam a situação desejada
de plena autonomia na gestão de suas novas responsabilidades legais
no sistema de saúde, através de processo gradual, flexível
e negociado.
Gestão Semiplena nos Municípios
Situação mais avançada,
com descentralização da gestão financeira, através
da transferência direta e automática dos recursos federais
(teto financeiro), para assunção pela direção
municipal do SUS da totalidade das responsabilidades gerenciais e do reordenamento
do modelo assistencial ("Ousadia").
Comissões Intergestores
(Tripartite e Bipartite)
Locus para todas as negociações
exigidas pelo processo de descentralização, com o objetivo
de promover a ação integrada entre as três esferas
gestoras do SUS e viabilizar o exercício da negociação
e do pacto.
Inovações no Financiamento
Definição de teto financeiro
global para assistência médica ambulatorial e hospitalar no
âmbito da CIB, e posterior encaminhamento à CIT para apreciação
e aprovação, observadas as disponibilidades financeiras do
Ministério da Saúde
Repasse dos recursos do teto financeiro
global para assistência, direta e automaticamente, do Fundo Nacional
de Saúde para os Fundos Municipais de Saúde
AVALIAÇÃO
PRELIMINAR DA GESTÃO SEMIPLENA
Fontes de Informação
-
Banco de Dados de Habilitações
- Ministério da Saúde (disponível na homepage do MS)
-
SIA/SUS e SIH/SUS - MS
-
O Processo de Organização da
Gestão da Assistência à Saúde - Brasil 1995
- Ministério da Saúde
-
Relatórios de Auditoria Operacional
- CISET-MS/MF
-
(Relatórios de Acompanhamento de Programas
de Governo)
-
Avaliação dos Serviços
Públicos de Atendimento à Saúde - UNICEF/Instituto
Gallup de Opinião Pública (relatório de pesquisa)
Por que preliminar?
-
Municípios em gestão semiplena
- 144 (2,9% do total de municípios)
-
Municípios com dois anos de gestão
- 40
-
Municípios avaliados após 2
anos de gestão - nenhum
-
Municípios avaliados após 1
ano de gestão - 28
-
Municípios avaliados segundo a mesma
metodologia - 30
-
Porque as informações só
ganham significado quando consideradas as especificidades do processo de
implementação do SUS em cada estado.
INDAGAÇÕES
QUE ORIENTARAM O ESTUDO
A estratégia
de descentralização operacionalizada através da NOB
SUS 01/93, especialmente no que diz respeito à implantação
da gestão semiplena nos municípios:
I. contribuiu para a descentralização do sistema de saúde?
II. contribuiu para a consolidação do Sistema Único
de Saúde?
III. encontrou que tipo de problemas e limites na sua implementação?
IV. contribuiu para a identificação de aspectos que merecem
aperfeiçoamento no processo de descentralização?
PROBLEMAS E LIMITES
NA IMPLEMENTAÇÃO DA ESTRATÉGIA
Financiamento
-
Conjuntura crítica em que só
era permanente a instabilidade nas transferências financeiras para
o Ministério da Saúde no âmbito da "Seguridade Social"
-
Relações institucionais problemáticas
entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Fazenda,
especialmente com a Secretaria do Tesouro Nacional
-
Ausência de regulamentação
para as transferências diretas e automáticas de recursos,
através do Fundo Nacional de Saúde
-
Metodologia para definição de
tetos financeiros baseada estritamente na produção de serviços
(séries históricas de gastos), dadas as informações
disponíveis nos sistemas de informação existentes
e a dificuldade em operacionalizar o artigo 35, da Lei 8.080/90
-
Indisponibilidade de recursos e inexistência
de política para investimentos necessários a qualquer processo
de reordenamento setorial, e em especial de modelo assistencial.
Reorganização
da gestão nas três esferas de governo
-
Cultura institucional setorial fortemente
centralizadora e dependente do governo federal
-
Conjuntura política e institucional
turbulenta, com o processo de extinção do INAMPS
-
Fragmentação institucional e
ação desarticulada do Ministério da Saúde
-
Ministério da Saúde e Secretarias
Estaduais de Saúde despreparadas para assumirem seu novo papel na
regulação, coordenação, acompanhamento e avaliação
da estratégia de descentralização, identificados com
o papel de executores diretos das ações e serviços
de saúde
-
Secretarias Municipais de Saúde despreparadas
e desequipadas para assumirem o planejamento, controle e avaliação
do sistema
-
Sistemas de Informação centralizados,
utilizados quase exclusivamente como sistemas de pagamento
-
Práticas de programação
das ações e serviços extremamente deficientes e incompatíveis
com a gestão descentralizada do sistema
-
Equívoco na gestão da estratégia
pela direção nacional do SUS - gestão semiplena com
trajetória isolada do conjunto do sistema
-
Monitoramento precário da estratégia
de descentralização pela direção nacional do
SUS
-
Burocracia governamental pouco valorizada
e com performance ainda identificada com a gestão centralizada e
com a administração autoritária
DESCENTRALIZAÇÃO
DO SISTEMA DE SAÚDE
-
Fortalecimento dos Secretários Estaduais
e Municipais de Saúde como atores políticos imprescindíveis
na condução do sistema de saúde e na formulação
de estratégias para a descentralização (CONASS e CONASEMS)
-
Fortalecimento da identidade de "gestor local
do sistema de saúde", mesmo em municípios de pequeno porte,
que no mínimo passaram a disputar a condução da política
de saúde em seu território
-
63% dos municípios brasileiros, onde
reside 66% da população brasileira, foram habilitados a alguma
condição de gestão descentralizada do SUS
-
1994/1997 - 144 municípios em gestão
semiplena, nos quais reside 17% da população brasileira e
para os quais transfere-se, direta e automaticamente, 24% dos recursos
financeiros do Fundo Nacional de Saúde para assistência ambulatorial
e hospitalar
-
11 capitais exercendo a gestão semiplena
da assistência à saúde :Região Norte:
Belém; Região Nordeste: Natal, São Luís,
João Pessoa, Recife, Teresina; Região Centro-Oeste:
Campo Grande, Cuiabá; Região Sudeste: Belo Horizonte
; Região Sul: Curitiba e Porto Alegre
-
Descentralização do processo
decisório (CIT e CIBs)
-
Mais transparência no processo de formulação
da política, especialmente com o desenvolvimento da prática
de programação integrada
CONSOLIDAÇÃO
DO SUS
Limites
-
Pouca visibilidade social - população
e profissionais de saúde
-
Informações sobre as experiências
da gestão semiplena ainda restritas aos fóruns específicos
de participação na formulação política
e na gestão do sistema
-
Mídia voltada para divulgação
das mazelas do sistema
-
Rio de Janeiro e São Paulo não
implantaram a gestão semiplena. São Paulo, ao contrário,
implantou estratégia alternativa amplamente divulgada pela imprensa
-
Acompanhamento assistemático e superficial
da gestão semiplena, tanto pela direção nacional como
pela direção estadual do SUS (com algumas exceções)
-
Alocação de recursos aos municípios
em gestão semiplena problemática em alguns estados, se considerada
a relação percentual de municípios habilitados a esta
condição de gestão, percentual de população
residente e percentual dos recursos do estado alocados aos municípios
em gestão semiplena
Possibilidades
-
As avaliações da CISET/MF não
comprometem a estratégia - as falhas identificadas resultam basicamente
de "despreparo técnico-administrativo e operacional, sanáveis,
principalmente pela viabilização de suporte técnico"
e com a sistematização, pela direção nacional
do SUS, de mecanismos que permitam a avaliação e acompanhamento
finalístico do sistema.
-
Pesquisa de Opinião UNICEF/GALLUP -
favorável à gestão semiplena
-
O comportamento dinâmico dos valores
per capita dos tetos financeiros dos municípios habilitados em 1994
ou 1995 à gestão semiplena, relativo ao período 94/97,
sugere que as CIBs vem realizando ajustes, com tendência à
diminuição destes valores.
Avaliações da CISET
(Relatórios)
-
Documentação precária
do processo de planejamento (Planos de Saúde e Relatórios
de Gestão).
-
Ausência de instrumentos formais de
acompanhamento e avaliação de resultados (metas claras, cronograma
de execução, indicadores para aferição de resultados)
-
Desrespeito às técnicas de elaboração
de orçamento/falta de transparência
-
Controle social incipiente
-
Sistema de auditoria não estruturado
-
Implantação de sistemas de informação
alternativos aos do Ministério da Saúde para auxiliar na
gestão
-
Resultados apontados pelos gestores: maior
transparência nas relações prestadores de serviços/gestores,
melhor performance na consecução das metas previstas, economicidade
de recursos para a saúde, maior controle sobre os procedimentos
ambulatoriais e hospitalares, entre outros.
RESULTADOS DA
PESQUISA DE OPINIÃO - UNICEF/INSTITUTO GALLUP
-
Internação é mais freqüente
em cidades sem gestão semiplena
-
Saúde Pública é mencionada
como problema em cidades sem gestão semiplena
-
Percepção de melhoria nos serviços
de saúde é maior nas cidades com gestão semiplena
-
Percepção da solução
dos problemas é maior entre usuários em municípios
com gestão semiplena
-
Aprovação aos serviços
públicos de saúde é maior nas cidades com gestão
semiplena
-
A avaliação dos serviços
de saúde é predominantemente positiva nos municípios
com gestão semiplena
-
Há maior percepção de
recente melhoria nos serviços de saúde nas cidades com
gestão semiplena (entre os usuários a percepção
é ainda maior)
-
Nas cidades com gestão semiplena,
os usuários consideram o atendimento menos lento
-
Falta de médicos e equipamentos é
maior nas cidades sem gestão semiplena
-
Avaliação da eficiência
é mais positiva nas cidades com gestão semiplena
-
Nas cidades com gestão semiplena
a avaliação da melhoria dos serviços públicos
no último ano foi o aspecto melhor avaliado por aqueles que utilizaram
pessoalmente esses serviços no período.
ASPECTOS QUE DEMANDARIAM
APERFEIÇOAMENTO NO ÂMBITO DA ESTRATÉGIA OPERACIONALIZADA
ATRAVÉS DA NOB SUS 01/93
-
Fortalecimento da direção nacional
do SUS em suas funções de regulação, de cooperação
técnica e de coordenação, acompanhamento e avaliação
do processo de descentralização e implementação
do SUS
-
Efetivação do comando único
na direção nacional do sistema, a partir da articulação
dos diferentes campos de atuação do Ministério da
Saúde na perspectiva da implementação da gestão
descentralizada do SISTEMA ÚNICO DE SAÜDE
-
Definição de estratégia
para substituição da lógica do financiamento baseada
na produção de serviços por outra que incorpore uma
política de investimentos e conduza um processo de realocação
de recursos que promova a equidade sem prejuízo para o funcionamento
do sistema
-
Investir esforços e autoridade para
que a direção estadual do SUS assuma suas responsabilidades
na coordenação da descentralização das ações
e serviços em seu território, com vistas a garantir relações
solidárias entre os municípios, entre estes e o estado, e
com os outros estados do país, na reorganização da
atenção à saúde, dentro dos princípios
de universalidade, integralidade e equidade
-
Definição de estratégia
para o aperfeiçoamento do planejamento, orçamentação,
e avaliação de resultados nas três esferas de governo
de forma a tornar possível o acompanhamento da formulação
e execução das políticas e a produção
de análises que subsidem a correção de rumos e a formulação
de alternativas
-
Definição de estratégia
para organização das informações básicas
para o acompanhamento da gestão descentralizada do SUS, considerando
a unicidade do sistema
-
Intensificação das transferências
diretas de recursos para os estados e municípios com vistas à
efetivação da gestão plena do sistema nas três
esferas de governo, de acordo com suas atribuições legais
-
Valorização dos recursos
humanos e inclusão deste tema como item prioritário
na agenda para a consolidação do Sistema Único de
Saúde
A NOB SUS 01/96
Contexto
-
Resultado do processo de programação
integrada da SAS com as Comissões Intergestores Bipartite, conduzido
pelo Ministério da Saúde ao longo do ano de 1995, que apontou
a necessidade de aperfeiçoamento na estratégia de descentralização
-
Processo de elaboração imediatamente
anterior à realização da X Conferência Nacional
de Saúde
-
Ampla participação dos principais
atores setoriais
-
Ano de instabilidade política, com
a mídia informando recorrentemente sobre a saída do Ministro
da Saúde, por divergências com a equipe econômica do
governo
-
Novos atores no cenário setorial: o
Ministério Público e Ministério da Administração
e Reforma do Estado/MARE
-
CIT, CIBs e Conselho Nacional de Saúde
bastante ativos no processo de formulação política
-
Diferentes projetos de descentralização
em disputa, com perspectivas contraditórias, inclusive dentro do
Ministério da Saúde.
Eixo da NOB SUS 01/96
-
Difícil identificar pela contradição
existente entre o seu propósito de tornar o poder público
municipal responsável imediato pelo atendimento das necessidades
e demandas de saúde em seu território (com as redefinições
de papéis dos poderes públicos estadual e federal necessárias),
e a forma como busca operacionalizar tais propósitos - o que coloca
uma série de preocupações quanto a sua implementação
-
Como muito há ainda a normatizar, o
que segue é a sistematização dos principais aspectos
que devem ser considerados na trajetória de implantação
desta nova estratégia:
1. É preciso cuidado para que o
processo de programação pactuada e integrada, que assume
centralidade na condução da descentralização,
seja flexível e criativo o suficiente para não substituir
o planejamento pautado em políticas e estratégias sintonizadas
com as realidades locais (tanto estaduais, como municipais), que vem demonstrando
uma diversidade bastante positiva, no sentido de promover o surgimento
de variadas alternativas e variados programas para enfrentar os principais
problemas de saúde no nível local.
2. É preciso que a construção
das bases para um novo modelo de atenção à saúde,
que, segundo a NOB, visa "a consolidação de vínculos
entre diferentes segmentos sociais e o SUS, e a criação de
condições elementares e fundamentais para a eficiência
e eficácia gerenciais, com qualidade", não se restrinja
a estes objetivos e menos ainda à simples/complexa incorporação
de procedimentos à tabela de remuneração de serviços
associada ao fortalecimento de um sistema nacional de auditoria para exercer
o controle sobre o uso destes procedimentos.
3. É preciso cuidado para que a
profusão de pisos, frações, incentivos, índices
e tetos, aos quais estarão associados elencos de procedimentos definidos
pela direção nacional do SUS, não provoque escorregões
no processo de descentralização que resultem em irreversíveis
fraturas no Sistema Único de Saúde e em seus princípios
de universalização e integralidade do atendimento (cesta
básica nacionalmente definida?) e na diretriz de comando único.
Diretriz esta, que só se viabiliza com autonomia na gestão
financeira na implementação das políticas e estratégias
- base da gestão plena do sistema.
4. É preciso cuidado para que o
Piso Assistencial Básico não atue como moderador da vontade
municipal de assumir a totalidade da responsabilidade sobre a gestão
da saúde em seu território e para sua população,
nem como estímulo para que o estado permaneça com a execução
de procedimentos de média e alta complexidade e com a gestão
hospitalar - o que sem dúvida atinge a possibilidade de ampliação
do controle social sobre o sistema de saúde - em detrimento de suas
funções de coordenação da descentralização
e de cooperação técnica aos municípios na implementação
do SUS.
5. Ainda em relação ao PAB,
é preciso muito cuidado para que os recursos necessários
para o financiamento de sua implementação não sejam
subtraídos do montante de recursos hoje comprometidos com a assistência,
mas ao contrário, como instrumento estratégico para a responsabilização
do poder público municipal, receba recursos extras para sua implementação.
6. Enfim é preciso de todos
os atores envolvidos no processo de operacionalização desta
estratégia, e à sociedade em geral, muita clareza em relação
a que Sistema Único de Saúde se pretende desenhar. Esta tarefa
está colocada para todos nós. E o tempo é curto.
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