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Tribuna Livre


A LOUCURA NO NOVO MILÊNIO

Ricardo Aquino- Diretor do Museu Bispo do Rosario
reisantana@aol.com

O novo milênio se abre com grandes desafios, destacamos aqui a questão urgente de construção da cidadania e de democratização do acesso da maioria da população aos bens produzidos coletivamente. A concentração de rendas em nosso  país se reflete em concentração de direitos e cidadania. Os deserdados da cidade e do campo também o são no aspecto do acesso à saúde, educação, laser, etc. A herança deixada pelos governos militares no campo da saúde em particular o da saúde mental foi  desastrosa: desassistência de parcela considerável da população, métodos repressivos (eletrochoque, camisas de força, cela forte) , predomínio da política de internação em grandes unidades hospitalares que se tornaram verdadeiros depósitos humanos : os asilos e manicômios. A política de privatização levou que a assistência fosse ineficiente, cara, permeada pela corrupção e malversação dos fundos públicos. Isto tudo se refletindo em grandes unidades manicomiais públicas e privadas, ausência de individualização do tratamento, ausência de práticas humanistas, psicoterápicas e de reabilitação. O destino e a finalidade do sistema era a exclusão, a internação por tempo indeterminado, a exclusão social. De forma ta e seguinte, de denúncias no campo da saúde em particular na saúde mental. Foi marcante o Programa Fantástico da TV Globo de um domingo de 1980 apresentando aos olhos estupefatos da sociedade civil a dura realidade que
se escondia por detrás da Colônia Juliano Moreira: depósito de excluídos e marginalizados. Os hospitais psiquiátricos de então foram comparados pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia como verdadeiros campos de concentração dos nazistas.Deste momento inicial de denúncias e de resgate do serviço público sucateado pela política de privatização então reinante, que se seguiria de maneira sofisticada e sustentada teoricamente pela política neoliberal do estado mínimo até os dias de hoje, se começou desde os idos dos anos oitenta uma luta permanente de defesa do serviço publico a humanizada. No decorrer dos anos oitenta e principalmente nos anos noventa de maneira mais ampla e clara, um contingente de profissionais da área da saúde mental, familiares e pacientes organizados e setores da sociedade civil, principalmente aqueles envolvidos nas lutas pelos direitos humanos, foram adquirindo consciência de que não bastava no campo da saúde mental se problematizar a questão em  torno da polarização público x privado , a questão era bem mais ampla e envolvia o próprio paradigma da psiquiatria, construído em torno da segregação e exclusão como justificativas ( ideológicas) apresentadas como evidências científicas para justificar o manicômio, a internação e o corolário de práticas que se alicerçam sobre este pilar . Nos anos noventa esta consciência se amplia e transborda ação com a família, o empregador, a previdência social, ou seja, todo um arcabouço que permeia o tecido social construído pela teoria e pela prática do paradigma da exclusão e da violência cometida contra os denominados loucos. No campo da assistência isto se expressava no embate pelo desmonte dos asilos e manicômios. No ano de 2001 após um grande processo de debates foi regulamentada, em 27 de março a Lei que rege a assistência psiquiátrica em nosso país. Esta Lei se abre para o novo milênio, com a perspectiva de que se por um lado ela contemplou diversos aspectos preconizados pelo movimento da luta antimanicomial, ela por outro lado reflete a correlação de forças contra os agentes contrários a este movimento.Teve grande repercussão a divulgação do ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO-IDH que  quantidade de riqueza ou pobreza. Este tipo de indicador se presta à confusão ideológica: o menos rico, é menos humano; quanto mais rico mais humano; quanto menos rico menos humano logo mais animal  logo menos direitos humanos e com mais razões podem ser tratados como animais. Isto tem grande importância para o campo da saúde mental posto que a maioria dos pacientes internados nos grandes hospitais é constituída de pobres, migrantes ou filhos de migrantes, sem profissão definida ou com a sua sobrevivência ligada a profissões desprestigiadas socialmente. A utilização ideológica do IDH, a banalização da violência, a defesa da eliminação física dos excluídos, isto tudo tem peso significativo quando se pensa sobre as práticas de atendimento aos doentes mentais. O imaginário de exclusão que permeia o horizonte do neoliberalismo gera preocupações e uma atitude de alerta para o movimento da luta antimanicomial. A luta se trava no campo da cultura, do imaginário social, no campo das representações, preconceitos e estigmas que vão inspirar ou legitimar ou mesmo serem coniventes com práticas de exclusão e de eliminação das diferenças. A questão da psiquiatria é permeada pela questão da cidadania, dos direitos humanos, da liberdade e da vida. A democratização do acesso à cidadania é o desafio que se apresenta para este novo milênio. O fortalecimento da cidadania no campo da saúde mental é uma luta permanente que interessa a todos os segmentos sociais comprometidos com a vida, e passa necessariamente pelo avanço das conquistas do movimento antimanicomial.


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